quarta-feira, 16 de março de 2016

QUE SEJA FUGA ENTÃO.



440
Deixa
Minha fantasia
Que nela
Acordo todo dia
Para trabalhar
Sem me perder
Na utopia

Deixa
Minha poesia
Que me ocupa
Quando não posso
Me ocupar de ti
Que me acalma
Me diverte
Que segura
Minhas barras
Que embalam
A saudade
As estradas
E as distâncias
Que nos separam
É meu robe
Meu carma
Meu darma
Minha alma
Minha cama
Prazeroso dever
Plano B
Válvula de escape
De coisas
Que não se poderia
Fugir
Me salva
De me perder

Não escapo
Não me escondo
Dos meus versos
Não me encolho
Não escolho
Nem quero
Escolher


Me perdoa
Pelo vício
Pelo impulso
De escrever
Perdoa
A poesia
Que me impede
De enlouquecer

quinta-feira, 10 de março de 2016

SAREL NA CASA DE STAEL.



439
Ontem à noite
Depois do expediente
De caixote
E bicicleta
Me mandei
Para o centro

De bar
Em bar
Em cima
Do Caixote
Exercendo o ofício
De declamar

Quando um moço
Me disse
Que na casa de Stael
Acontecia
Um Sarel
Oportunidade ímpar
Para um poeta
Que faz as mala
De seus versos
E os leva
Para viajar

Como oportunidade
Na vida
É o que não se perde
Fui o tal Sarel
Conhecer

Tinha gente
Não muita
Não pouca
Suficiente
Inteligente
Sorridente
Diferente
Da média da sociedade
Que engrossa
O estouro da boiada
Correndo
Para o abismo

Tinha musica
Ao vivo
Autoral
Bem de perto
Um encanto
Tinha poesia
Declamada
E para quem quisesse
Ler
Não eram poucas
E muito boas
Eram as poetisas
Tinha comida gostosa
Tinham crianças
Tinham gatos
Convidados para a festa

Tudo numa casa
Decorada
Iluminada
Colorida
Encantada
Que me fez
Me sentir em casa

Era dia das mulheres
Fiz minha homenagem
E até ouvi
De uma parede
Esta poesia:

“Minha utopia:
Que todos os dias
Sejam
Simplesmente dias

Que não hajam mais
Minorias”

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

UMA DITADURA SUTIL.



436

O capitalismo

É degradante

Trabalho escravo

E estressante

Ao meio ambiente

Gente

Comendo

Gente

Peca

Pelo excesso

E pela falta

Desequilíbrio

Entre

Quem recebe

E quem trabalha


Um planeta

Tão imenso

Consumido

Por tão poucos

Fazer dinheiro

Pelo simples prazer

De se ter

Dinheiro


O capitalismo

É um abismo

Em que

Nos jogamos

Todos

Por medo

Escolha própria

Falta de opção

Ou ilusão

Decadente

Sempre

Se recicla

Se disfarça

Sobrevive

E dá as cartas


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

PARA QUEM REZA-SE O TERÇO.

Um terço para mim
Um terço para o resto
Um terço para Aécio

Uma rima capenga
Um trocadilho besta
É tudo que me resta

E a justiça?
Ao que se presta?
Ao que vem ao caso
Para a imprensa
Que pensa
Em quem manda
Em que paga a conta
Quem defende a cota
Mantém a meta
De se manter impune
Imune
Á qualquer ética
Privilégios eternos
Desse sistema podre
Que um dia sonhamos
MUDAR

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

ROMÂNTICOS DE CUBA.




432
Hoje
Me mandaram ir para cuba
Fiquei com vontade
De ir

Mas decidi
Fazer melhor
Vou trazer
Cuba para cá
Somar
E multiplicar
Ao dividir
As riquezas
Da Terra do Porvir
E o país do futuro
Será alegre
E colorido

Topo andar de bicicleta
E até
Escrever
Num AT
Que não tenha nem acento
Aproveito
E juntamente
Com as vírgulas
E os pontos
Me obrigo a aboli-los
E pronto

Quem tem mérito
Será recompensado
Mas
Sem explorar
Os desmerecidos

Cuba será
Um continente
Sem embargos
Nem inimigos
Aposto
Que o povo
Será
Feliz para sempre
Se não for assim
Vou para Cuba contente

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

COMO NASCEU O CAIXOTE DE POESIAS.



Após ter publicado o livro Poesia só de Brincadeira e de ter visto a editora descumprir a promessa de distribuir 500 cópias no Brasil e 250 em Portugal, percebi que meu livro não venderia se não pelas minhas mãos. Entendi que ninguém, independente da qualidade do trabalho, iria apresenta-me num programa de televisão, que ninguém escreveria uma crítica num jornal e que eu é que teria que levar minha poesia a cada um.
Pensei então em como levar minha poesia ao público que anda pela cidade e que se aglomera aqui ou ali. Como Vitória é uma cidade praiana e praia sempre junta gente, pensei em pegar carona num produto que faz sucesso na praia: picolé. Poderia me associar a um vendedor de picolés ou eu mesmo pegar o carrinho numa fábrica. Compraria um megafone e sairia pelas praias de Vitória a vender picolés e poesias, o projeto se chamaria Praia, Picolé e Poesia. Um amigo ao ouvir minha ideia me disse uma grande verdade:
“- Vais vender muito picolé!”
Mas a poesia iria viajar e poderia ir de brinde.
Um dia contei meu plano a um picolezeiro que vende picolé na frente da firma, na hora do almoço e o convidei para tocar o negócio comigo, propondo fazer a empreitada no sábado, o que ele respondeu de pronto:
“-No sáaaaaaaabado????”
O ocorrido me abriu os olhos para o fato de que, envolver outras pessoas no projeto, seria um grande empecilho para sua realização. Fiquei com a ideia na cabeça, mas sem colocar nada em prática.
Mais adiante fiz um embarque no Rio de Janeiro e na volta para Belo Horizonte, li na revista da companhia aérea uma entrevista com Mônica Martelli. Ela conta com partiu para o projeto do filme “Os homens são de Marte, é para lá que eu vou”. Dizia ela que já tinha feito alguns bicos e personagens secundários, mas a carreira não deslanchava. Sua mãe lhe dissera que ela tinha que levar seu texto, que era muito bom, parar o público, que ela tinha que ir para a praça, subir num caixote e declamar sua obra, assim ela foi atrás de materializar seu texto. Ela não subiu num caixote, mas como eu nunca tinha feito se quer uma ponta ou papel secundário- os únicos papéis que havia feito, eram principais: “João Geólogo” na Feira do Verde e “A Bruxaria das Pedras” no GEOSTOK- resolvi seguir o conselho à risca, o de sua mãe e mais o de Sérgio Sampaio que disse que “lugar de poesia é na calçada”.
Quando li a tal entrevista, vi de cara a solução que eu precisava, com a vantagem da versatilidade e portabilidade do Caixote. Da bicicleta ao avião, ele vai bem acomodado, dá para levar na mão também, se instala fácil na calçada, na praça, no teatro, no bar e onde mais se puder imaginar e só dependeria de mim para colocar em prática onde e quando quisesse e houvesse uma oportunidade. Poderia sair por aí sem destino certo, programar eventos ou participar, me inserindo fácil, em eventos programados por outros. Estava ali, o veículo que levaria minha poesia para viajar pelo universo, e que me levaria junto em cada sorriso que arrancasse por aí. A construção era barata e o projeto muito viável. Aplicando os conceitos do reaproveitamento e da reciclagem, essenciais para qualquer projeto artístico hoje em dia, catei três caixotes na calçada de uma fruteira, com os quais fiz um reforçado. Tinta, pincéis, alguns versos escolhidos, criatividade e alguma prática na pintura eu tinha. Pintei o caixote em tinta a óleo, o que exigiu várias etapas de pintura e secagem, com algumas viagens no meio. Processo demorado, que me dava tempo para a ideia amadurecer.
Pronto o caixote, comprei o megafone, escolhi as poesias e desde agosto de 2013, o caixote está na rua. O Tenho levado em todas a viagens que faço, sem a esposa e as crianças e aproveitado todas as oportunidade de declamar minhas poesias. O caixote viaja todos os dias na garupa da bicicleta para o trabalho e voltamos brincando de poesia na Praia de Camburí. Já participou de eventos, como o FICA (Festival Internacional de Cinema Ambiental), na Cidade de Goiás e da semana cultural da firma, já parou na Feira de Artesanato de BH, já foi ao circo e não vai parar tão cedo. Talvez venham outros caixotes, com formas e cores diferentes, junto com novos livros, novos textos e contextos.
Tem sido muito gratificante e a animadora a recepção que as pessoas tem tido diante do Caixote, das poesias e do poeta. Seus versos são retribuídos com sorrisos e elogios, às vezes palmas, às vezes também com a venda de um livro, indicando que estamos no caminho certo e que devemos seguir em frente. Já rolou até encomenda de poesia, por um senhor, que ao ouvir “Água Viva”, sugeriu que eu fizesse uma sobre o pó da Vale, o que foi prontamente atendido com “Do pó a à lama, da lama ao pó”.  

O projeto é elogiado por ser inovador, inusitado e por levar cultura para a rua em lugares onde menos se espera. Mais elogiada ainda é a coragem do poeta, que ao subir no caixote supera o medo e o risco de cair de toda aquela altura.