Após ter publicado o livro Poesia só de Brincadeira e de ter
visto a editora descumprir a promessa de distribuir 500 cópias no Brasil e 250
em Portugal, percebi que meu livro não venderia se não pelas minhas mãos. Entendi
que ninguém, independente da qualidade do trabalho, iria apresenta-me num
programa de televisão, que ninguém escreveria uma crítica num jornal e que eu é
que teria que levar minha poesia a cada um.
Pensei então em como levar minha poesia ao público que anda
pela cidade e que se aglomera aqui ou ali. Como Vitória é uma cidade praiana e
praia sempre junta gente, pensei em pegar carona num produto que faz sucesso na
praia: picolé. Poderia me associar a um vendedor de picolés ou eu mesmo pegar o
carrinho numa fábrica. Compraria um megafone e sairia pelas praias de Vitória a
vender picolés e poesias, o projeto se chamaria Praia, Picolé e Poesia. Um
amigo ao ouvir minha ideia me disse uma grande verdade:
“- Vais vender muito picolé!”
Mas a poesia iria viajar e poderia ir de brinde.
Um dia contei meu plano a um picolezeiro que vende picolé na
frente da firma, na hora do almoço e o convidei para tocar o negócio comigo,
propondo fazer a empreitada no sábado, o que ele respondeu de pronto:
“-No sáaaaaaaabado????”
O ocorrido me abriu os olhos para o fato de que, envolver
outras pessoas no projeto, seria um grande empecilho para sua realização.
Fiquei com a ideia na cabeça, mas sem colocar nada em prática.
Mais adiante fiz um embarque no Rio de Janeiro e na volta para
Belo Horizonte, li na revista da companhia aérea uma entrevista com Mônica
Martelli. Ela conta com partiu para o projeto do filme “Os homens são de Marte,
é para lá que eu vou”. Dizia ela que já tinha feito alguns bicos e personagens
secundários, mas a carreira não deslanchava. Sua mãe lhe dissera que ela tinha
que levar seu texto, que era muito bom, parar o público, que ela tinha que ir
para a praça, subir num caixote e declamar sua obra, assim ela foi atrás de
materializar seu texto. Ela não subiu num caixote, mas como eu nunca tinha
feito se quer uma ponta ou papel secundário- os únicos papéis que havia feito,
eram principais: “João Geólogo” na Feira do Verde e “A Bruxaria das Pedras” no
GEOSTOK- resolvi seguir o conselho à risca, o de sua mãe e mais o de Sérgio
Sampaio que disse que “lugar de poesia é na calçada”.
Quando li a tal entrevista, vi de cara a solução que eu
precisava, com a vantagem da versatilidade e portabilidade do Caixote. Da
bicicleta ao avião, ele vai bem acomodado, dá para levar na mão também, se
instala fácil na calçada, na praça, no teatro, no bar e onde mais se puder
imaginar e só dependeria de mim para colocar em prática onde e quando quisesse
e houvesse uma oportunidade. Poderia sair por aí sem destino certo, programar
eventos ou participar, me inserindo fácil, em eventos programados por outros. Estava
ali, o veículo que levaria minha poesia para viajar pelo universo, e que me
levaria junto em cada sorriso que arrancasse por aí. A construção era barata e
o projeto muito viável. Aplicando os conceitos do reaproveitamento e da
reciclagem, essenciais para qualquer projeto artístico hoje em dia, catei três
caixotes na calçada de uma fruteira, com os quais fiz um reforçado. Tinta,
pincéis, alguns versos escolhidos, criatividade e alguma prática na pintura eu
tinha. Pintei o caixote em tinta a óleo, o que exigiu várias etapas de pintura
e secagem, com algumas viagens no meio. Processo demorado, que me dava tempo
para a ideia amadurecer.
Pronto o caixote, comprei o megafone, escolhi as poesias e
desde agosto de 2013, o caixote está na rua. O Tenho levado em todas a viagens
que faço, sem a esposa e as crianças e aproveitado todas as oportunidade de
declamar minhas poesias. O caixote viaja todos os dias na garupa da bicicleta
para o trabalho e voltamos brincando de poesia na Praia de Camburí. Já
participou de eventos, como o FICA (Festival Internacional de Cinema Ambiental),
na Cidade de Goiás e da semana cultural da firma, já parou na Feira de
Artesanato de BH, já foi ao circo e não vai parar tão cedo. Talvez venham
outros caixotes, com formas e cores diferentes, junto com novos livros, novos
textos e contextos.
Tem sido muito gratificante e a animadora a recepção que as
pessoas tem tido diante do Caixote, das poesias e do poeta. Seus versos são
retribuídos com sorrisos e elogios, às vezes palmas, às vezes também com a
venda de um livro, indicando que estamos no caminho certo e que devemos seguir
em frente. Já rolou até encomenda de poesia, por um senhor, que ao ouvir “Água
Viva”, sugeriu que eu fizesse uma sobre o pó da Vale, o que foi prontamente
atendido com “Do pó a à lama, da lama ao pó”.
O projeto é elogiado por ser inovador, inusitado e por levar
cultura para a rua em lugares onde menos se espera. Mais elogiada ainda é a
coragem do poeta, que ao subir no caixote supera o medo e o risco de cair de toda
aquela altura.