Adorei receber e ler o livro Vestígios de um Tempo, com textos da
família Saldanha Pimenta, compilados pelas Tias Teresinha e Alzeni Saldanha.
Nas lembranças de cada um vertem momentos de alegria, de amor e de
fraternidade, mas também as intempéries de dias difíceis de um tempo duro, que
enfim demonstrou nossa capacidade de sermos felizes acima de tudo e evoluir
sempre.
O mais interessante que me veio do que li
foi constatar que minhas tias, senhoras muito sérias e responsáveis, que aqui
se mostram sem o véu da autoridade familiar, também foram crianças cheias de
travessuras e sonhos, que tinham suas rebeldias e testavam os limites do
sistema como qualquer criança. Tinham suas birras e preferências, mas cresceram
e entenderam as diferenças, evoluíram, guardando, no fundo, o doce de ser
criança.
Nestes escritos fica latente que uma família é feita de pais,
mães, e também de filhos, irmãos, tios, primos... e é sustentada no amor, que é
motor de todo comprometimento, no perdão e convivência com as diferenças,
focando no que é convergência.
Da patotinha relatada pelas Tia Fatinha e Gorete eu
me lembro muito bem, pois eu era figurinha carimbada nas férias jussarenses. Recordei-me
de pronto da primeira vez que fui ao cinema, quando tinha um em Jussara. Era à
noite e o filme era um preto e branco romântico. Lembro-me da primeira cena do
galã com a mocinha, minhas primas e tias se derretendo todas, e depois me
lembro delas me acordando para irmos para casa: dormi o filme inteiro e perdi o
valor do ingresso. Outro fato que pode ter me marcado, mas felizmente não me
deixou sequelas, foi quando essa patotinha formada pelas Tias Gorete e Fatinha,
mais as filhas da Tia Aurizete, me vestiram de mulher e me maquiaram. Meu pai
chegou e viu a cena, sem que elas tivessem tempo de desfazer a traquinagem. Não
sei qual foi o tamanho da bronca para elas. Era muita imaginação naquelas seis
cabecinhas.
Lembro-me do Jeep e das camionetes do Tio
Gabriel, dos fins de semana na Serra do Chumbo, da casa, do curral, do monjolo
e da vista da serra ao fundo da casa, onde matacões de granito, empilhados,
formam belas e imponentes esculturas. Hoje, geólogo com o poder de falar e ouvir
as pedras, me cobro voltar lá e como portador de uma boa máquina, tirar fotos e
postar neste blog.
E quem é capaz de esquecer o dia em que me perdi na serra? Tinha ido
com o Tio Antônio e mais uma molecada buscar abóbora no milharal. Resolvi
voltar antes e me vi num labirinto de milho que já estava maior do que eu. Perdi
a direção e sai do milharal para o mato por onde apontava meu nariz. Segui em
frente e quando percebi que estava perdido, não sei por que motivo, resolvi
continuar em frente. Andei léguas até encontrar uma casa, onde fui pedir água.
Ao ser indagado o que fazia ali sozinho, respondi que estava perdido e o senhor
me levou a cavalo de volta. Chegando à fazenda estavam todos desesperados,
tinham gritado por mim a manhã inteira, desde que tinham dado minha falta.
Teve uma história de que não me esqueço: foi um veado que o Tio
Gabriel ganhou de não sei de quem. Só sei que o bicho era brabo e me pegou no
quintal cercado. Eu corria e o bicho me derrubava, eu levantava e ele me
derrubava de novo até que alguém veio me salvar, mas não sem antes ganhar uns
bons esfolados.
Eram férias inesquecíveis, nos divertíamos
o mês inteiro. Nos dividíamos entre a casa da minha avó Maria, mãe da minha
mãe, do meu avô José, pai do meu pai, da Tia Neném e Tio Manoel, Tia Aurizete e
Tio Gabriel. Era muita gente para nos agradar.
Outro fato interessante que me trouxe o
livro, foi constatar que um dos pores de sol que a Tia Teresinha destacou em um
dos seus textos, foi um que assistimos no Lago Guaíba em Porto Alegre. Fico
muito feliz ao relembrar aquela viagem pelo Rio Grande do Sul com a tia mais
viajandona da família.
O livro conta histórias de um tempo duro,
de um povo bravo. O que somos hoje mostra que evoluímos, seguimos os exemplos
de nossos avós que vieram para Goiás para mudar para melhor. Aposentamos a
palmatória e aprendemos a ensinar e aprender pelo amor e os dias são cada vez melhores.
Obrigado Tia Auzeni, Tia Teresinha e a
todos que contribuíram pelo belo presente para toda família, por esse mergulho
na nossa história, que nos ajuda a entender quem somos e passa a limpo nossos
mais profundos sentimentos. Um guia para nosso futuro. Obrigado por nos
proporcionar conhecimento dos atos e fatos dos que nos antecederam, e do valor dos
que construíram os alicerces do que somos hoje.
Termino com um poema que resume o que somos hoje.
Oh! Deus
Se é que
existes
Só te peço
Não me
castigues
Pela vida
boa
Que eu
levo














